Meu pai é jornalista, mas desde antes de eu nascer que ele faz traduções, muitas das quais bastante difíceis, indo desde o coloquial dos quadrinhos até romances com o inglês australiano do século XIX. Como cresci acostumado a ver todo o tipo de dificuldade em traduções, passei a, de certa forma, respeitar esse tipo de trabalho e até mesmo tolerar certos abusos que os tradutores cometem por vezes.
Mas tudo tem seu limite. Não suporto tradução de poesia que quer manter ritmo e rima. Isso, pra mim, não só é uma pretensão e uma ingenuidade como, principalmente, uma agressão à obra original, uma falta de respeito. Por exemplo: no momento estou lendo o Cyrano de Bergerac e várias das suas falas são em versos alexandrinos. O tradutor lança mão de cada subterfúgio esdrúxulo para manter a métrica e as rimas que, muitas vezes, eu não consigo prestar atenção no texto (até porque, de certa maneira, o que estou lendo não tem muito a ver com o que Rostand escreveu). Há desde coisas apenas incômodas, como o uso de palavras meio idiotas só para compor rimas ou a falta de coerência no estilo (por exemplo, uso de "pra" e "para" na mesma fala, dependendo da necessidade da métrica), até problemas graves, como o uso de segunda pessoa do plural no tratamento de uma criança. É muita apelação pro meu gosto!
E a coisa não melhora muito quando poetas consagrados se metem a fazer traduções de poesia, pelo contrário, tudo tende a piorar. Machado de Assis e Fernando Pessoa fizeram horrores como O Corvo (The Raven), de Edgar Allan Poe. A tradução do Machadão chega a ser ridícula. A do Pessoa é até boa dentro de tais limitações, mas é muito fraca justamente por macular o texto original e iludir o leitor, fazendo-o crer que está lendo uma coisa totalmente diferente. Inclusive a versão da edição da Aguilar de obras completas do Poe, que é de um tradutor de cujo nome não me lembro mas não é um poeta famoso, é a melhor das três, e ainda assim é forçada e dispensável. Puxa vida, como manter o mesmo ritmo se as línguas anglo-saxãs têm uma forma completamente diferente de fazer métrica em poesia em comparação às latinas??? É incoerência na própria essência.
Aliás, isso não acontece apenas em poesia... ainda me lembro da minha mãe vociferando contra o Drummond (ou o Quintana, não lembro) por causa de uma tradução de Proust. Ela dizia que teve um parágrafo que ele simplesmente inventou a história, só porque provavelmente não sabia como traduzir, tal era a complexidade do texto. É por essas e outras que é arriscado ler traduções de bons escritores pois não têm o menor pudor em colocar para funcionar seu talento e macular ainda mais a obra original.
Não vou nem entrar na questão de tradução da tradução, pois se em prosa isso já é temerário, em poesia, então, chega a ser cômico. Telefone sem fio, sabem como é? Pois é... Mas por que será, oh por quê?, que as pessoas ainda insistem em traduzir poesia com a pretensão de manter rimas e métrica?